Levantei-me cedo, apesar de não ser dia de semana. Não tinha de ir trabalhar, nem tinha obrigações, mas tenho em casa dois animais que adoro e que se encarregam de todas as manhãs de me acordar. Eles lá entendem que eu não deverei dormir mais. Ou o meu cão gordo que quando menos espero e se me descuido me lambe a cara como se me estivesse a limpar, ou então o meu gato, não menos inteligente, e que parece ter um despertador dentro dele, que me decide acordar passando por cima do rosto, fazendo-me franzir o nariz graças á comichão que o pelito dele me faz na cara. Eu tento ficar mais uns minutos, mas eles são mais teimosos que eu. O Chubby o meu cão quer ir encher a barriguita de comida preciosa, o Bear, o meu gato, quer todas as manhãs e bem cedo que eu lhe abra a porta da varanda para se colocar do lado de dentro da cozinha a olhar para os pássaros que aparecem ali para comer e beber num pequeno recipiente que improvisei. Ele gosta de os fitar embora que quando lá chegue junto a eles já não consegue apanhar nenhum como ele desejaria, não fosse um felino matreiro. Parece uma brincadeira de apanha-apanha, mas apesar das infrutíferas capturas dele, não desiste e sempre quer estar ali bem cedinho como se de um trabalho se tratasse. Se não lhe abro a porta, corre pela casa fora, batendo com as patinhas na madeira da tabua corrida da minha casa e enrolando os tapetes, zangado. De tal modo que até o Chubby vai atrás dele, o que causa um terramoto bem maior em cima daquelas antigas e envernizadas madeiras… E que terramoto. Não fosse ele um Bulldog Inglês de 25 Kilinhos bem robusto e carregado de banhas adoráveis. Como vem as minhas manhãs são de agilidade, alegria, movimentação, porque eles querem, eles mandam, e eu acabo por ser a visita dentro da minha própria casa. Mas eu amo-os assim. Já vestido e depois de lhes dar a atenção que precisam vou então á rua. Digiro-me ao centro comercial, onde gentes e gentes andam emaranhadas e sofras pelo consumismo. Não gosto de ali estar mas tive mesmo de ir ao shooping fazer uma compra. Rapidamente saí não sem antes dar uma espreitadela numa loja que fica mesmo na entrada do metro e à saída do centro comercial. A minha preferida. A loja de animais é claro. Ao dirigir-me às montras de vidro gigantescas do seu interior vejo um pequeno gatinho preto. Miava desalmadamente. Agora de olhos fitados em mim parecia hipnotizar-me, parecia ele querer falar comigo na sua língua e que eu não entendia. Parecia dizer-me que estava farto de ali estar, parecia fazer as suas queixas todas em miados altos e sem fim. De lado um papel. Adopta-me. Como eu fiquei tentado em leva-lo comigo. Apenas tinha de ter uma transportadora, e eu tinha, apenas tinha de assinar um termo de responsabilidade e eu podia assinar. Apenas tinha de ter amor para lhe dar e isso não faltava com toda a certeza. Mas tinha os meus dois bichinhos ca em casa e a capacidade para mais um era pouca. Entristeci-me, chorei a olhar aquele gatinho que não parava de me fixar. Tentei afastar-me da montra para que ele não entendesse que me ia embora e a cabeça dele acompanhava-me com miados ainda mais altos. Rapidamente saí. Lágrimas nos olhos, ouvindo ao longe um miar sofrido de um bebe que acabou de ser abandonado uma vez mais. Eu abandonei-o. Todos os que tivemos naquela montra o abandonamos. Entrei no metro. Ouço um acordeão. Olho e sinto um arrepio no corpo, um nó na garganta. Um romeno, um miúdo romeno como é hábito ver no metro de Lisboa tocando acordeão. Em cima do acordeão uma cadelinha miniatura segurava no focinho o fundo de uma garrafa de plástico preso por um arame. Era o balde das esmolas, era o balde do sofrimento talvez. Seria engraçado de ver, se não me tivessem já informado que para que estes animais tenham equilíbrio no aparelho musical e para que se mantenham ali quietos com o seu ar tristinho mas simpático, levassem tareia e fossem mal tratados. Uma postura exigida, uma educação rígida para estar ali a dar o seu bom ar de graça. Sem que na maioria das pessoas que colocavam a moedinha no fundo da garrafa soubessem o que aquele pequeno ser de 4 patinhas sofria. Triste. Baixei os olhos e não consegui mais ver. Assim como ao gatinho para adoptar queria traze-la, mas não podia, não podia faze-lo. Senti-me impotente e sem forças. Senti que ali o ser humano não presta, senti que ali eram eles que tinham de ser ajudados. As pessoas não mereciam o carinho deles. Mas eles mereciam todo o carinho do mundo. Sentei-me no sofá a pensar nisto, já com os meus animais mimados á minha volta. Adormeci triste. Triste com o mundo. A pensar neles…Rui Cláudio Dias
1 comentários:
A tristeza das tuas palavras descreve bem o mundo à nossa volta...
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