Mais uma vez, venho eu falar de algo que me fascina. O Bulldog Inglês. Tenho um cão desta raça e não tenho palavras por vezes para o descrever... Existe quem diga que se trata do cachorro mais feio do mundo, mas no entanto trata-se em absoluto de um cão bonito. O Bulldog é descendente dos antigos Mastins Asiáticos, que chegaram até à Europa através dos navegantes mercadores fenícios por volta do séc. VI a.c. Não deixa de ser estranho como é que um cão tão pequeno e gordo descende de uma raça tão grande, mas os criadores tentavam de qualquer forma realizar e adaptar a morfologia das distintas raças de cães para as funções que eles teriam que efectuar. O Bulldog actual foi o resultado da tentativa de criação de um cão que pudesse efectuar lutas com touros, quer clandestinas quer em desportos de entretimento para várias mentes e que actuavam em propriedades privadas ou locais públicos como coliseus romanos. Como o seu próprio nome indica: “Bull” que quer dizer “Touro” e “Dog” que quer dizer “Cão”. No entanto, só no séc. XIII é que se dá o aparecimento vincado do Bulldog, altura em que se tornaram populares na Grã-Bretanha os combates entre cães e touros cuja actuação se dava o nome de Bull Baiting, um espectáculo bastante cruel e que se dizia ser um desporto. Estes combates foram estimulados por Lord Stamford que, num ocasional passeio em Lincolnshire, observou dois touros a lutar por uma fêmea. Os Bulldogs de um açougueiro local ao verem tal luta atiram-se sobre um dos touros e abateram-no após uma luta bravia. Divertido com o que acabara de presenciar, decidiu defender uma área e épocas onde estas lutas se tornassem acontecimentos comuns de divertimento. A popularidade deste desporto depressa se amplificou pela Grã-Bretanha, que foi congratulada com arenas que ainda hoje existem neste país. Consequentemente, o Bulldog foi ao longo dos tempos “trabalhado” fisicamente e psicologicamente para enfrentar os touros, tornando-se num animal feroz, bravio, corajoso e destemido, com uma excelente forma de combate e com uma elevada resistência. Foram muitos anos de selecção que tornaram o Bulldog num animal obsessivo por luta e sangue. Este entretimento agradava tanto aos camponeses como ao público nobre, grandes personagens da história bem conhecidas como a Rainha Isabel I, que proporcionava este tipo de espectáculo como parte dos entretimentos das recepções oferecidas aos Embaixadores e Monarcas de outros países. Também gostavam deste desporto, Carlos I, Jaime I e Ricardo III. Era triste todos estes procedimentos, mas a sociedade infelizmente sempre teve destes erros que sacrificam os animais, como este evento infeliz que usava o Bulldog para divertir pessoas e dar por vezes rendimentos a donos apostadores que ganhavam dinheiro com as lutas dos seus cães caso eles vencessem nas exibições que lhes eram confiadas. Nestas lutas o Touro era amarrado pelos chifres com uma corda de vários metros de extensão a uma estaca presa no centro de uma arena em forma de círculo e defendia-se com os chifres tentando atingir o abdómen do cão, que desenvolveu uma táctica de rastejamento para proteger-se dessas investidas demasiado perigosas. Muitos Bulldogs que os Touros conseguiam atingir eram lançados para o ar e os Bullots, nome dado aos donos dos cães, amorteciam a queda com os aventais de couro, típicos dos açougueiros ou utilizavam estacas de bambu para fazer o cão rolar em segurança até chegar ao chão. Mesmo que estivessem feridos e em determinados casos mesmo quase derrotados ao elevado estado de sofrimento, estes cães retornavam para a luta. Os Bulldogs foram os cães mais adequados para estes tipos de lutas pois eram persistentes, muito ferozes, e possuidores de uma incrível resistência à dor. O ataque era conduzido ao focinho do Touro, o qual o Bulldog mantinha agarrado até que o Touro, ensanguentado e esgotado pelas infrutíferas tentativas de livrar-se do cão, tombava domado. As jogadas baseavam-se em tentar apostar qual o Bulldog que conseguiria abater um Touro com a maior rapidez, mas com o passar do tempo outras finalidades foram admitidas como por exemplo a do Bulldog se manter agarrado à cabeça do Touro pelo maior tempo possível. Muitos outros cães foram testados neste tipo de violência mas o Bulldog sempre provou ser o melhor e de mais agrado para os praticantes deste tipo de desporto. As outras raças de cães tinham formas muito próprias de se defenderem, mas formas que acabavam por ser muito pouco seguras o que por sua vez permitiam a que os Touros levassem a melhor durante a luta. Em 1795 deu-se mesmo o extremo da barbárie, quando na cidade de Liverpool se realizou um espectáculo de Bull Baiting numa doca seca e quando acabou a luta abriram as comportas da água fazendo submergir tanto os vencedores como os vencidos. Com o passar do tempo cada vez mais se tentou aperfeiçoar o Bulldog de maneira a que fossem mais adequados às lutas. As patas ficaram mais curtas para um melhor rastejamento de maneira a que o Touro não o conseguisse atingir, o focinho mais recuado, que proporcionou um aumento do poder, mandíbulas poderosas que nem por vezes o próprio animal tinha conhecimento do seu poder de morder. As rugas do focinho permitiam também o escorrimento do sangue do Touro para que a respiração do Bulldog não fosse afectada levando assim a que a obstrução da mesma não acontecesse. Os melhores cães eram usados para procriar e trazer assim gerações de lutadores incansáveis. No entanto apesar de ser estas lutas um meio de entreter muitas pessoas, também existia quem condenasse este procedimento e esta rusticidade denominada desporto incomodava quer elementos do povo camponês quer de pessoas de renome por se achar de uma extrema violência. Exemplo disso foi o Duque de Devonshire que em 1778 proibiu o Bull Baiting em Tubnury, cidade onde estes espectáculos aconteciam desde 1374. Em 1802 também o Reverendo Barry deu um sermão histórico aos habitantes da Cidade de Workingham que acabou por abolir esta prática. Embora em passos calmos, a oposição a este desporto denominado de Bull Baiting cada vez se foi tornando mais forte. A evolução do pensamento da civilização, tornou o povo mais consciente da carnificina injustificável que o deporto referido representava, o que não era nada aceitável nos tempos presentes e futuros, passando a representar como uma exposição de atrocidade e barbarismo. Após muita polémica e debates sobre este procedimento, a oposição ao Bull Baiting tornou-se tão forte que no ano de 1835 foi criada uma lei que proibia a luta entre animais. Embora a lei tenha sido promulgada, marginais e pessoas mal intencionadas continuaram a promover a prática do Bull Baiting em locais clandestinos, longe dos olhos das autoridades. Mas depressa essas práticas foram descobertas e os defensores do Bulldog, que o contemplavam como um animal que não deveria ser dirigido a lutas, tentaram com todas as forças protegerem esta raça e inverterem as suas funções. Ao longo dos tempos seguintes e contrariamente ao que até aqui se tentava fazer, trabalhou-se o Bulldog para inverter totalmente a sua finalidade. O amor por esta raça que poderia estar na data sob o risco de extinção, deu origem a que os seus amantes acarinhassem este animal e tentassem de todas as formas protege-lo, portanto os subsequentes anos foram utilizados para impulsionar uma transformação de um ser extremamente perigoso, criado para lutas, carregado de maus adjectivos que o definissem, num cão meigo, dócil, e adequado ao convívio humano. Para isto foram seleccionados os cachorros mais calmos e menos ferozes para que este árduo trabalho de inversão tivesse sucesso. Foram rejeitados na reprodução, todos os cães agressivos, neuróticos ou instáveis. Esta raça foi alterada fortemente, até ao aparecimento do Bulldog actual, propício para conviver na sociedade sem oferecer qualquer tipo de risco ao homem e aos outros animais. A dedicação oferecida ao Bulldog presenteou-nos com este exemplar digno de se ver e de admirar quer pelo seu sofrimento no passado, quer pela sua figura de louvar no presente.Rui Cláudio Dias
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